Entre a estética e a pressão social, o corpo virou território de medo
Os riscos silenciosos por trás da caneta do emagrecimento
Revista Lavrin — Janeiro 2026 | Vol. 1
Por muito tempo, emagrecer foi tratado como escolha pessoal. Um desejo individual. Um objetivo íntimo. Em 2026, essa narrativa já não se sustenta. Emagrecer deixou de ser opção e passou a ser obrigação social, atravessando ambientes profissionais, relações afetivas, redes sociais e até consultórios médicos.
Nunca se falou tanto em saúde. Nunca se recorreu tanto a medicamentos. E, paradoxalmente, nunca o corpo esteve tão vigiado, pressionado e temido.
A chamada “caneta do emagrecimento” tornou-se símbolo de uma nova era: a da magreza legitimada pela medicina, pelo discurso científico e pela promessa de controle absoluto do corpo. Mas por trás da normalização do uso desses medicamentos, existe um debate urgente que ainda acontece em silêncio.

A MAGREZA VOLTOU COM AVAL CIENTÍFICO E PRESSÃO SOCIAL
Após anos de discursos sobre aceitação corporal, o padrão estético retornou com força. A diferença é que agora ele vem embalado por linguagem médica, dados clínicos e prescrição farmacológica.
Medicamentos desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2 passaram a ser amplamente utilizados para emagrecimento. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), esses fármacos possuem indicação clara em casos específicos de obesidade e doenças metabólicas, mas não devem ser banalizados como solução estética.
A Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) alerta que o uso indiscriminado pode gerar riscos quando não há acompanhamento adequado e avaliação individualizada.
O problema não está no medicamento em si.
O problema está quando ele deixa de ser tratamento e vira regra social.

O CORPO COMO PROJETO, NÃO COMO ORGANISMO
A lógica atual transformou o corpo em um projeto de performance. Um espaço a ser corrigido, controlado e ajustado constantemente.
Ganhar peso passou a ser interpretado como falha pessoal. Manter o corpo natural tornou-se, para muitos, sinônimo de negligência. A escolha de não usar medicamentos passou a exigir justificativas.
Esse cenário cria um ambiente onde o corpo deixa de ser um organismo vivo e passa a ser um objeto sob vigilância permanente.
OS RISCOS SILENCIOSOS POR TRÁS DA CANETA

Embora esses medicamentos sejam aprovados por órgãos reguladores como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e a Food and Drug Administration (FDA), as próprias entidades médicas reforçam que aprovação não significa uso irrestrito.
Estudos clínicos e dados observacionais apontam possíveis efeitos adversos, entre eles:
- Náuseas persistentes e vômitos
- Distúrbios gastrointestinais
- Perda acelerada de massa muscular
- Deficiências nutricionais
- Alterações hormonais
- Impactos metabólicos a médio e longo prazo
A SBEM reforça que o emagrecimento rápido, sem preservação da massa magra e sem reeducação alimentar, pode comprometer a saúde global do paciente.
SAÚDE MENTAL: O TEMA QUE FICOU FORA DA RECEITA
Um dos pontos menos discutidos nesse processo é o impacto psicológico. O foco quase sempre recai sobre números: peso, medidas, índice de massa corporal. Pouco se fala sobre a relação emocional com o corpo.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a pressão estética é um dos principais fatores associados ao crescimento de transtornos alimentares, ansiedade e depressão, especialmente entre mulheres.
Especialistas alertam que o uso contínuo de medicamentos para emagrecimento pode gerar dependência psicológica, medo intenso de interromper o tratamento e ansiedade relacionada à alimentação.
Quando a saúde mental não é considerada, o emagrecimento deixa de ser cuidado e passa a ser fonte de sofrimento.
MULHERES NO CENTRO DA PRESSÃO
Embora homens também sejam impactados, os dados mostram que as mulheres continuam sendo o principal alvo da cobrança estética.
A exigência de magreza atravessa diferentes fases da vida feminina: juventude, maternidade, maturidade e envelhecimento. A mensagem é constante: o corpo precisa estar sob controle.
Essa cobrança não é neutra. Ela produz culpa, vigilância e comparação permanente agora amplificadas pelas redes sociais.

REDES SOCIAIS E A NORMALIZAÇÃO DO MEDO
Vídeos de “antes e depois”, relatos de perda rápida de peso e rotinas de aplicação do medicamento se multiplicam. O discurso quase sempre é positivo, otimista e simplificado.
Raramente se fala sobre:
- O processo de interrupção
- A manutenção do peso
- Os efeitos colaterais
- O impacto emocional
O resultado é a normalização de um medo silencioso: o medo de voltar a engordar.
O QUE DIZ A MEDICINA RESPONSÁVEL
Entidades médicas são claras ao afirmar: não existe emagrecimento saudável sem avaliação individual.
Segundo diretrizes da SBEM e da ABESO, qualquer tratamento medicamentoso deve considerar:
- Histórico clínico completo
- Avaliação metabólica detalhada
- Saúde mental
- Acompanhamento contínuo
- Reavaliação periódica da necessidade do medicamento
Não existe solução única. Existe contexto.
ENTRE A ESCOLHA E A OBRIGAÇÃO, FICA O MEDO
Talvez o maior risco dessa nova era não seja físico, mas simbólico. O medo de engordar voltou a ocupar espaço central na vida das pessoas.
Medo de comer.
Medo de parar o tratamento.
Medo de não corresponder ao padrão.
Quando emagrecer vira obrigação, o corpo deixa de ser aliado e passa a ser território de controle.
PARA ONDE CAMINHAMOS?
O avanço da medicina é real e necessário. Mas ele precisa caminhar junto com ética, informação e responsabilidade.
A pergunta que fica é simples e urgente:
Estamos tratando corpos ou corrigindo imagens?
A Revista Lavrin acredita que saúde não pode ser construída sobre medo, culpa ou imposição.
Saúde é cuidado.
E cuidado exige consciência.
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