Número atribuído a Alexandre de Moraes aparece ligado a contas digitais citadas em apuração sobre Banco Master

alexandre
Número atribuído a Moraes aparece ligado a contas digitais (Foto: reprodução/youtube canal do STF)
Um número de telefone atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, em registros extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, também aparece associado a contas digitais identificadas com o nome do magistrado, segundo apuração da BBC News Brasil.

O dado surgiu no contexto da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. O relatório da Polícia Federal, com mais de 200 páginas, não afirma de forma direta que o número pertencia a Moraes. Ainda assim, o contato aparece no aparelho de Vorcaro registrado de diferentes formas, sempre com referências ao ministro, ao STF ou ao TSE.

De acordo com o material, tornado público por decisão do ministro André Mendonça, Vorcaro teria tratado com esse contato de temas relacionados à investigação e a medidas que poderiam afetar sua prisão preventiva. A PF descreve as conversas como “possíveis interações” e usa o nome do ministro entre aspas, indicando a forma como o contato estava salvo na agenda do banqueiro.

No celular analisado, o mesmo número aparecia vinculado a quatro registros: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. Segundo a Polícia Federal, esses contatos teriam sido compartilhados pelo ex-ministro Fábio Faria em uma conversa de WhatsApp, em dezembro de 2023, e depois armazenados por Vorcaro.

Um ponto importante da apuração é que a perícia recuperou apenas mensagens enviadas por Vorcaro. As eventuais respostas do outro lado da conversa não foram obtidas, já que somente o celular do ex-controlador do Banco Master foi apreendido. Por isso, o relatório não apresenta o conteúdo de mensagens atribuídas diretamente a Moraes.

Contas digitais associadas ao número

Para verificar possíveis vínculos digitais, a BBC News Brasil submeteu o número citado no relatório a uma plataforma de inteligência de fontes abertas. Esse tipo de ferramenta cruza informações públicas disponíveis em bases digitais, sem invadir sistemas ou acessar dados privados.

Segundo a apuração, foram encontradas quatro associações. Uma delas aparece no TikTok, onde o número atribuído ao ministro estaria ligado a um perfil identificado como “Xandao”. A conta teria sido criada em 2024 e, de acordo com a verificação, não registra atividade posterior ao cadastro.

O perfil tinha poucos seguidores e seguia apenas uma conta, identificada como pertencente a uma filha do ministro. Ainda conforme a BBC News Brasil, a esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e a mesma filha apareciam entre os seguidores do perfil. A reportagem informou ainda que a conta permanecia no ar até a publicação da apuração.

A BBC também afirmou ter confirmado que o perfil de Viviane Barci que seguia a conta associada ao nome de Moraes estava ligado ao número de telefone que aparece no relatório da PF como pertencente a ela. Essa associação foi identificada por meio de busca no mesmo serviço de verificação.

Além do TikTok, o número atribuído ao ministro também teria aparecido em três serviços de identificação e busca reversa de telefones: SimplerMe, Calling App e Truecaller. Nessas plataformas, o telefone surgiu associado ao nome “Min. Alexandre de Moraes”. A mesma consulta em outro site semelhante teria apresentado resultado equivalente.

Esses serviços funcionam como diretórios colaborativos ou bases de identificação de chamadas. No caso do Truecaller, por exemplo, os nomes associados aos números podem ser indicados por usuários ou aparecer a partir de dados disponíveis nas bases da plataforma. Por isso, a associação digital não funciona, por si só, como comprovação absoluta de titularidade, mas foi usada como elemento adicional na apuração.

Relatório cita contrato milionário e mensagens recuperadas

As conversas analisadas pela Polícia Federal também envolvem pagamentos ligados a um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes.

Segundo o relatório, investigadores recuperaram mensagens apagadas do celular de Vorcaro a partir de capturas de tela enviadas pelo WhatsApp. A PF afirma que o banqueiro redigia mensagens em um aplicativo de notas, fazia prints e enviava as imagens usando o recurso de visualização única. Apesar de esse formato dificultar a recuperação do conteúdo como mensagem convencional, arquivos temporários gerados pelo aparelho foram localizados durante a extração forense.

O relatório aponta que esses arquivos apareciam em uma pasta interna do iPhone identificada como “tmp”, usada para armazenamento temporário. Parte deles havia sido apagada poucos minutos depois de criada, mas foi recuperada pela perícia. Os investigadores cruzaram horários de criação das notas, produção das capturas, geração dos arquivos e envio das imagens pelo WhatsApp.

Em uma das mensagens citadas, Vorcaro cobra atenção especial aos pagamentos do contrato com o escritório Barci de Moraes. Em outra, pede que os valores não sofram atraso e classifica o pagamento como o mais importante do banco naquele momento. Também há registros de transferência no valor de R$ 3.422.268,14 para o escritório.

O escritório Barci de Moraes afirmou, em nota, que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação dos serviços pelo Banco Master. Segundo a banca, a consulta ocorreu porque o ministro é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora do escritório.

A nota sustenta que não havia previsão de atuação perante o STF nem qualquer impedimento legal para a contratação. O escritório também afirmou que Alexandre de Moraes “jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master” e que os serviços advocatícios foram devidamente prestados.

A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, manifestou-se contra procedimentos adotados por André Mendonça e pediu a nulidade do inquérito. Com isso, o caso segue cercado por disputas jurídicas, questionamentos sobre a validade da investigação e novas apurações envolvendo registros digitais, contratos milionários e possíveis conexões entre o Banco Master e pessoas próximas ao ministro.

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